terça-feira, julho 26, 2005

Coisas das histórias – O homem que não chegou a suicidar-se I

Imagina que o único remédio para os seus pesadelos era abrir aquela porta. Ambos sabemos que é uma suposição, mas que outra forma temos nós de perceber o que foram os seus últimos dias?

Imagina então que, quando ele a abriu, encontrou o armário de contas, e que, em cada uma das gavetas, encontrou cada uma daquelas imagens que lhe atormentavam o sono. Imagina que as confrontou, uma a uma, decifrou-as em todos os detalhes e percebeu-lhes o sentido; imagina que todas elas tinham um sentido. Imagina que cada uma o conduziu a um daqueles momentos de que já te falei tantas e tantas vezes; aqueles momentos em que estar vivo é uma experiência tão forte que se dá uma alteração no nosso corpo: surge uma ruga, de tanto sorrirmos; desaparece-nos o brilho dos olhos, de tantas lágrimas vertermos; embranquece-nos um cabelo, depois de uma grande desilusão...

Imagina que conseguias esquecer todos os teus grandes amores, e lembrar-te de cada fugaz paixão; imagina que conseguias falar com toda a gente querida que já morreu, e com os teus filhos que poderiam ter nascido.

Imagina que conseguias descortinar o teu futuro, tão bem como o farias com o teu passado, aliás.

Como poderia não morrer depois desta experiência?!? Que mais havia a fazer? Apenas sonhar. Apenas sonhar.

Espero que ele tenha, afinal, conseguido voar por cima de tudo isto; ao som do metal do Coltrane. Lembras-te? Quando disse que lhe podiam tirar os talheres e o vinho, mas que não lhe tirassem a My Favourite Things? Acabou por comer o jantar frio...mas com a música que queria!

Podes chamar-me idiota Trinta e Três, mas, para mim, foi assim que aconteceu, e assim me resolvo.

2 Comentários:

Às 28 julho, 2005 14:04, Anonymous Anónimo disse...

Muito bom, tou preso....

Tripas

 
Às 28 julho, 2005 19:51, Blogger maria borboleta disse...

e eu...tens uma fã para a vida!

 

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