domingo, abril 17, 2005

Coisas da Imaginação - Memórias lá da Roça

Foi no dia 25 de Junho de 1975.

A Circa de 1908 (provavelmente uma das poucas câmaras de cinema existentes em toda a África em 1975) estava guardada com mil cuidados no alpendre e continuávamos a ouvir todos os dias os protestos da minha esposa, Teresa: "Um dia dou esta caixa aos conguitos..." - referia-se à película que conservávamos no pequeno frigorífico que tínhamos; a dita caixa já lá se encontrava há dois anos...

Mas não se pense que era por acaso. Quando a câmara chegou da Rússia (oito meses depois de a termos encomendado), trazia tudo o que precisávamos para filmar e para a revelação do filme; passa-se que trazia apenas duas bobines de película, com três minutos de filme cada uma.

Mal a máquina chegou, viajamos para Maputo; vestimo-nos bem e os miúdos levavam laços azuis e camisas brancas. Vestimos também algum do pessoal que trabalhava na Roça há mais tempo, e as meninas dos moleques iam com mangas de balão.

Quando já estávamos em frente à casa do governador civil e eu montava o tripé, toda a alegria transformou-se em desilusão: o Zé Canilha (o meu fiel criado), tentando ajudar, retirou a película da bobine (pensando que era isso o suposto). Como se não bastasse, o Tobias (o nosso macaco de estimação) pegou na fita e desatou a correr pela rua...os sipaios ainda foram apanhar-lhe o passo, mas já era tarde demais, a película já havia sido mais que exposta e ficou toda queimada.

De volta a Lourenço Marques, sob o calor abrasador e a poeira intensa, decidi que só usaria a outra película num momento muito especial. Acabou por ficar no frigorífico até ao último dia.

Decidi que a usaria no momento em que decidimos regressar a Lisboa; eu tinha que levar um filme como memória...

Assim, fui sozinho para a Praia de Polana e fiz isto, que se vê.

Este filme lembrar-me os bons tempos que passámos juntos na roça; dos bailes do Pavilhão da Praia, onde dancei com as bifas antes de te conhecer; das tardes que passávamos debaixo das bananeiras; dos imensos campos de milho que cultivámos; da liamba que crescia a cada esquina; do Lamdim que se ouvia dentro dos casebres; da nossa vitória histórica contra o Malhangalene, ai os tempos do hóquei...; do Studbaker que tivemos que deixar para trás; enfim, da família que criámos ao som das ondas.

Agora, de novo em Lourenço Marques - mas de férias - mostro-o a todos, para que se lembrem de ti, Teresa, que nos deixaste há precisamente 20 anos.



Música: Cesária Évora, Tchintchirote.

Mais e melhor, é aqui.

8 Comentários:

Às 17 abril, 2005 15:43, Anonymous Anónimo disse...

Um texto surpreendente e agradável de se ler...As coisas que nos marcam, as que ficam e as que vão. É o passado, o presente e o futuro..é a "Saudade" da querida Cesária Évora.

Arroz desculpa se calhar a minha ignorância, onde foste buscar o texto?
cumprimentos a todos disfrutem o presente, acreditem no futuro e nunca desprezem o passado...

Abraços, Tripas

 
Às 17 abril, 2005 15:43, Anonymous Anónimo disse...

Um texto surpreendente e agradável de se ler...As coisas que nos marcam, as que ficam e as que vão. É o passado, o presente e o futuro..é a "Saudade" da querida Cesária Évora.

Arroz desculpa se calhar a minha ignorância, onde foste buscar o texto?
cumprimentos a todos disfrutem o presente, acreditem no futuro e nunca desprezem o passado...

Abraços, Tripas

 
Às 17 abril, 2005 16:18, Blogger maria borboleta disse...

Quanto mais te leio, mais gosto de ti! És muito especial, e possuis um mundo interior muito bonito, muito cheio!
adoro-te GODFATHER

 
Às 18 abril, 2005 15:24, Blogger Arroz de Estragão disse...

Tripas: O vídeo e o texto são meus - como vês, a minha loucura já está a entrar nos domínios da múltipla personalidade! ;)

Vou desfrutar do presente: tenho muita fome, vou almoçar!

Um abraço.

Borboletinha: um dia ainda me passo e vou escrever, vais ver ;)

Obrigado pelos preciosos e inspiradores elogios; eu também te adoro, como bem sabes.

Um abraço

A todos: VOU SER PADRINHO!!!!!

 
Às 18 abril, 2005 19:57, Blogger FDV disse...

muito bom. grande post. já cá passei algumas vezes e fiquei a ver e ouvir. chega o momento de deixar o registo.

[sim, porque comentar também faz parte. o arroz de estragão que o diga: deixou um dos maiores e melhores comentários lá pelas paredes oblíquas quando falou acerca de madredeus]

os melhores cumprimentos.

 
Às 19 abril, 2005 00:19, Blogger Arroz de Estragão disse...

fdv: muito obrigado pelos elogios; fico contente que já cá tenhas vindo várias vezes ver o mesmo post :)

Quanto aos comentários, são sempre bem vindos - são a melhor forma de perceber se os outros gostam daquilo que nós fazemos; e como os blogues, pelo menos para mim, são meras partilhas, fico sempre triste quando vejo um "poste" com 0 comentários, mesmo que goste muito do "poste".

Mas como diz o ilustríssimo Manuel Vicente: "um tipo vem ao mundo para mudar a vida de uma ou duas pessoas..." - não se pode esperar que o mundo gire à nossa volta, ainda que, às vezes, isso não fizesse mal algum...

Cumprimentos e até breve ;)

 
Às 22 abril, 2005 06:27, Anonymous Fagulha disse...

oi galera
adorei a pequena história, fez me sentir saudade, da terra e dos amigos... a musica é eternamente linda e comovente
este blog está c uma qualidade impressionante, parabéns aos meninos!! parabéns ao padrinho!
tou a pensar mandar umas coisas p porem aqui.
aquele abraço

 
Às 22 abril, 2005 10:45, Blogger Arroz de Estragão disse...

Fagulha!!!

Fico muito contente em "ver-te"!

Ui...tantas perguntas que vinham aí agora...

Enfim, estás bem!

Deves ter muitas coisas para contar também ;)

Também tenho saudades tuas; acho que temos, todos...

Já viste o 31 que me arranjaram?!? agora vou ter de comprar um fraque :)

Fico à espera que mandes algo das tuas preciosas experiências por aí. (manda já hoje, senão dispersas-te ;))

Aquele abraço prá ocê :)

 

Enviar um comentário

<< Home