domingo, abril 24, 2005

Coisa Sublime


Foto: Elena Getzieh

Foi há dez anos, em Paris…
19:45, Enquanto vestia a casaca no meu camarim ouvia os músicos a afinarem seus instrumentos, de que resultava uma melodia desconexa e desafinada. Estava nervoso, sabia que hoje era o grande dia, ia mostrar ao mundo o que era ser maestro, seria o maior momento da minha carreira. Sonhava há muitos anos com este dia...confiante olhei para o espelho e desejei profundamente que tudo corresse bem. Saí.
Fui para o palco e todos me seguiram, espreitei através da cortina de vermelho veludo e vi que a sala aos poucos se enchia de homens e mulheres bem vestidos, brilhantes. Sabia que assim que o burburinho terminasse era o nosso momento.
20:00 a sala entrou num silencio profundo e numa escuridão menos profunda, a cortina abriu e ouvi as palmas, entraram os violinos, as violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, clarinetes, fagotes, trompas e trompetes, depois entrou o coro. O primeiro violino deu o dó e todos afinaram, silêncio de novo, aperto no estômago e entrei, palmas de novo, tomei a minha posição, confiante e sorridente. Virei-me para a minha orquestra, segurei a minha batuta, olhei-os firmemente e começou intensamente.
A música aos poucos foi tomando conta de mim…sentia que era no meu corpo que ela se expressava enquanto gesticulava…as notas passavam na minha cabeça, formando a melodia que tão bem conhecia e no meu rosto sentia que os acordes, a intensidade tomavam forma.
Já não era eu que ali estava, numa espécie de transe a música de Beethoven corria pelas minhas veias, sentia o suor a correr-me pelas costas cansadas, o colarinho estava apertado e molhado, o meu rosto estava quente e pulverizado de suor, ao fim de cada andamento, respirava fundo, e cuidadosamente limpava o rosto e a careca, com o lenço bordado pela Conceição, minha mulher.
A energia passava para o outro lado, para traz, sentia isso…era estranho, mas imaginava os rostos das centenas de pessoas que nos viam, naquele momento, e esperavam o momento em que o coro se levantaria e certamente os arrepiaria, como a mim acontecia sempre que ouvia a Sinfonia #9.
20:43 foi o momento em que o coro se levantou e tenor começou: O Freunde, nicht diese Tone! E foi o grande momento da minha vida, já não ouvia nada, sentia uma dormência por todo o meu corpo, extasiado, arrepiado, sorria, movimentava-me como nunca em trinta anos de carreira, vibrava, sofria, ouvia e vivia o que cada um dos instrumentos dizia, e chorei como uma criança, mas não parava, continuava a fazer o que todos esperavam de mim, a dirigir a minha orquestra.
Estes últimos dezasseis minutos foram os mais intensos da minha vida, era o Hino da Alegria, e era o que se cantava, o que ouvia, o que sentia, chorava mas era a alegria que me caía dos olhos…a intensidade espalhava-se por toda aquela sala, e Beethoven estava genialmente vivo, naquele momento das nossas vidas, da minha sobretudo.
21:05 acabou, foi uma explosão de alegria, de pé aplaudiam incessantemente, chamaram-me quatro vezes ao palco e sorria, estava exausto. Não sabia bem o que sentia, estava confuso por dentro, era um delírio. O meu último concerto, o meu único concerto sem o meu amor presente, um momento único e sublime.
Hoje aqui sentado na minha poltrona ouvindo na minha aparelhagem a gravação desse momento, ainda me arrepio, e movimento os meus braços como se tivesse todos aqueles rostos olhando para mim…ainda sinto o mesmo! Porque é bom recordar!

1 Comentários:

Às 24 abril, 2005 22:46, Blogger Arroz de Estragão disse...

Definitivamente, este blogue está a atingir uma qualidade que eu não esperava...

Parabéns Borboletinha, e obrigado.

 

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