sábado, novembro 27, 2004

Coisas do Amor - "Red Thin Line"

Já cá faltava...o amor acaba sempre por vir à conversa...

No último dia em Krakow, enquanto esperava pelo comboio, fui para um bar chique gastar os últimos trocos que tinha. Passou uma música que eu conhecia, já há muito tempo, não consegui lembrar-me do nome de quem a cantava: Ne me quitte pas...

Veio-me a nostalgia e dei comigo a chorar sozinho enquanto comia uma tosta mista; aconteceu esse acidente, porque chorar é sempre um acidente.

Não consigo dizer como aconteceu; por nenhum momento em concreto; por ninguém em concreto; por nenhum local em concreto. Aconteceu porque, no geral, em mim, como em toda a gente, existem passados e desejos de futuro; o futuro é sempre triste, porque é escuro, não se vê; e o passado, esse, volta-nos de quando em vez; devora-nos; Porque, em verdade, há sempre qualquer coisa que não esquecemos em cada uma das paixões que temos. A nostalgia é devoradora e, como dizer...docemente triste.

Neruda escreveu que não conseguia escolher uma mulher; porque a mulher escolhida, para um homem, corresponde ao conjunto de todas as diferentes características das diferentes mulheres que amámos. Eu, tristemente, sublinho Neruda; tristemente porque suponho, assim, que "aquela mulher" não existe.

Posso apontar inúmeros momentos em que senti amor; quero dizer, preenchido com amor, e isso é o amor. Aconteceu com x, y ou z; neste ou naquele momento; desta ou doutra forma. Hoje sei que o quero, muito...

Estar num café em Krakow e, por acidente, começar a chorar ao som da Ne me quitte pas é perceber que poderia ter sido com todas e, ao mesmo tempo, com nenhuma...é perceber que deixamos uma paixão para trás das costas que poderia ter sido o grande amor; é perceber que, pelas curvas da vida, umas vezes fomos terrivelmente infantis, outras, terrivelmente inocentes e outras ainda, terrivelmente intolerantes; é perceber que tudo se perde quando se perde a comunicação; é perceber também que, quanto a tudo isto, não há nada a fazer; foi assim.

O amor foi inventado. É por isso que é tão bom, e tão difícil. O amor é inventado e re-inventado todos os dias; mesmo quando pensamos descobri-lo por mero acaso. De cada vez, queremos sempre mais...ou então não.

"O amor comanda a vida", é verdade. É por isso que somos tão frágeis, mesmo quando estamos entretidos com "outras felicidades".

Disse-lhe ontem que me sentia confortavelmente "pobre"; com "pouco" para dar e contente com o "pouco" que recebia; mas, às vezes, as pessoas querem mais - seja isso possível ou não; seja isso um breve interstício naquilo que nos deveria preencher, seja isso um inevitável contrato platónico com a nossa dócil imaginação...

São coisas feias as expectativas; esterilizam o nosso presente e ferem o nosso futuro; ao contrário do que se possa pensar, as expectativas não se focam no futuro, são antes os sublimes e insublimes do nosso mais íntimo passado.

As expectativas são "os brilhantes aliados dos nossos próprios coveiros", pensar num possível momento é já impossibilitá-lo menos.

Estar num café em Krakow e, por acidente, começar a chorar ao som da Ne me quitte pas é perceber que esta coisa do amor que todos queremos, é muito mais um equilíbrio do saber viver no presente do que a correspondência às inevitáveis expectativas que fazemos; é perceber que a paixão só dura os momentos em que não pensamos sobre ela; é perceber que o amor vive enquanto soubermos amar...é realizar que em toda a viagem que nos aconteceu, a todos, não aconteceu haver alguém que tivesse realizado que o amor é esta fina linha em que tudo cabe e que por tudo pode ser perturbável.

É perceber como podemos ser tão terrivelmente imaturos em não constatar que ele só precisa de ser deixado em paz.

"Esvaziem a cabeça de tudo o que 'sabem' do amor; assumam a condição humana de que não sabemos nada e, por isso, sabemos tudo; percebam que não existe o 'dar', que não existe o 'receber', que não existe 'medo', que não existe 'vergonha', que não existe 'intimidade'. O amor é muito mais que isto, é muito mais do que a soma de todas estas e outras coisas." é nisto que pensa uma pessoa que chora num café de Krakow ao som da Ne me quitte pas.

Talvez porque estou triste; talvez porque não muito mais triste do que ficaria de outra forma qualquer, pus a Nina Simone em "repeat"; mas estou longe de sentir o mesmo, porque chorar é sempre um acidente.

Mas estou arrepiado.

"Immerse your soul in Love.", é que não é a Nina que a canta, não entendem? É antes o amor.

É que não é 'paz e amor', é antes 'paz ao amor'.

Beijos.








Post Scriptum: e, com certeza melhor do que na minha poesia, vejam o que pode acontecer na fina linha; está no Before Sunset.

Before Sunset: tão bom como verdadeiro.

2 Comentários:

Às 28 novembro, 2004 00:16, Blogger maria borboleta disse...

o amor é extraordinário...até porque é capaz de fazer com que pessoas como tu sejam capazes de escrever coisas tã bonitas como esta.

é bonito perceber que somos capazes de sentir tudo o que de maior existe, e nos transcende...e apercebermo-nos disso por causa de uma simples musica como a que ouvias nesse café.

amar preenche...
amar dá sentido...
amar um homem, uma mulher ou qualquer coisa,
faz-nos sentir maiores
melhores
mais
e mais
VIVOS!

parabéns por te mostrares vivo, sem vergonha, sem medo, sem nada, e com tudo!

 
Às 29 novembro, 2004 23:02, Blogger m'A disse...

agora sim.
gosto disso
gosto
;)

 

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